A curva de juros já embute dois cortes de 25 pontos-base para o próximo ano. Mas os modelos internos dos principais bancos divergem sobre o ritmo e o piso da taxa.
A reunião do Copom de agosto de 2025 não trouxe surpresas na decisão — a Selic ficou em 10,75%. Mas o comunicado que acompanhou a decisão foi lido com lupa pelos participantes do mercado, e as interpretações divergiram mais do que o habitual.
O ponto central do debate é o seguinte: o Banco Central sinalizou que está "monitorando" a evolução do cenário fiscal, mas não disse que está "preocupado". Para alguns analistas, essa distinção é relevante. Para outros, é semântica.
A curva de juros futuros, no fechamento da última sexta-feira, embutia dois cortes de 25 pontos-base para 2026 — um em março e outro em junho. Isso implica uma Selic terminal de 10,25% ao final do ciclo de flexibilização.
Mas os modelos internos dos principais bancos divergem. Dois dos maiores gestores de renda fixa do país projetam Selic a 9,75% no final de 2026. Um banco de investimento estrangeiro, por outro lado, trabalha com 11,25% — ou seja, sem cortes.
"A dispersão das projeções é o maior sinal de incerteza que o mercado pode dar. Quando todos concordam, o preço já está lá. Quando divergem assim, é porque o cenário realmente não está claro." — Gestor de renda fixa, em conversa com a redação
O cenário de cortes depende de duas condições: inflação convergindo para a meta e fiscal sem surpresas negativas. A inflação está cooperando — o IPCA dos últimos 12 meses está em 4,62%, dentro da banda. O fiscal é o ponto de interrogação.
O cenário sem cortes — ou com alta — exigiria uma deterioração significativa do quadro inflacionário ou uma crise de confiança fiscal. Nenhum dos dois está no radar imediato, mas o mercado precifica risco, não apenas cenário base.
Economista com 15 anos de mercado financeiro. Especialista em política monetária e mercado de juros. Contribui para o MercadoAberto com análises técnicas de renda fixa.